domingo, 22 de novembro de 2009

A torcida das cigarras

Todos os dias passo por um caminho cheio de árvores enormes e esbeltas. É lá que ouço o canto.
Essa época chuvosa, nublada e fria, nos traz muitas reflexões sobre a vida. O fim do ano vai chegando e a tristeza invadindo os pensamentos. Percebemos quantas coisas foram deixadas para trás, quantas coisas deixamos de lado e quantas coisas simplesmente nos deixaram. A semelhança dos sentimentos ao fim de cada ano é certa, mas nunca a esperamos. E mesmo assim, por incrível que pareça, esses sentimentos existenciais sempre nos surpreendem.
Quando me aventuro pelo corredor verde e vivo, as cigarras nos fazem agir, ou melhor, fazem o nosso pensamento agir. É confuso se não prestar atenção. Muita gente passa, reclama do barulho, resmunga e continua seguindo. Muita gente pára, olha, se pergunta por que tanta manifestação, mas vai embora. Muita gente não entende o que elas fazem. Mas nem tudo precisa, necessariamente, ser entendido. Ou entenda à sua maneira e aquilo se tornará uma verdade.
Se as cigarras morrem mesmo após o término do canto, é preciso ter esperança em alguma coisa, algo em que se agarrar até o suspiro final. A vida delas não têm história completa, não têm clímax, apenas um começo e um fim. Quando as pessoas passam, a chama que outrora jazia apagada, renasce e ascende sobre aquele exército de cigarras. A esperança ressurge na história vivida por cada pessoa. E quando elas passam, a torcida começa. Para cara uma que se aproxima, gritam seu canto, torcem por sua vitória. E o som vira um êxtase diante das árvores que servem de cenário para o espetáculo.
Mas os humanos, cheios de preconceito e ignorância, continuam seguindo, acreditando levar a vida indiferentemente, para toda a conformidade do mundo.
Se nós não vermos algo mágico naquilo que somos ou que poderíamos ser, se víssemos, estaremos sempre mais ligados à realidade sem graça das obrigações e deveres de todos os dias.
Quisera as pessoas saberem do real motivo de todo esse canto sufocado de desejo e magia...

domingo, 25 de outubro de 2009

A descontínua continuou: viva um ano!

É, por ironia, ele continua... Não sei se ficarei para ver até onde, mas se ele for, eu vou junto. Claro.

Parabéns ao blog que, descontinuamente, continua continuando muito bem, espero então, que eu consiga dar continuidade para que sempre fique assim, continuando e continuando até cansar de continuar...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

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"Se me queres, enfim, tem de ser bem devagarinho, Amado, que a vida é breve, e o amor mais breve ainda"...

..........................................Mário Quintana

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Ainda é cedo demais para nós dois...
Ama-me assim, devagar e com cuidado,
Pois, dessa maneira, a eternidade parecerá eterna, enfim.

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sábado, 18 de julho de 2009

Aspas x Travessão

Estava eu lendo um livro de bobeira, para passar o tempo, quando me deparei com uma questão importantíssima dentro da minha formação psicológica a respeito dos escritos literários.
Um assunto de tal relevância não poderia ser descartado tão facilmente. Evidente que não, é claro.
Quando estou lendo um livro, de bobeira ou não, onde há diálogos, logo reparo na forma como o autor coloca as conversas nos seus lugares (não que isso tenha maior importância). Se há travessão ou aspas.
A reflexão foi muito enriquecedora para chegar a uma conclusão apurada.
Particularmente, prefiro as aspas.
É certo que com elas, muitas vezes, a leitura fica meio confusa.
Sujam o texto, visualmente falando, mas acho que o deixam mais natural. É como se não precisasse "necessariamente" de um sinal indicador da fala porque isso já flui naturalmente.
Travessão tende a dar uma impressão de organização. Só que, é justamente isso que eu não gosto. Quer dizer, é claro que é ótimo quando está tudo muito bem "diagramado". Mas convenhamos, é chato ter que ler aquela narração empolgadíssima, para chegar na hora dos diálogos e ter que abaixar os olhos para um próximo parágrafo, esperar a passagem pelo "traço enorme" para depois, enfim, ler a bendita fala. Isso me tira do sério.
Sem contar que o travessão deixa o texto muito mecânico e sem um andamento livre, é tudo muito "certinho" demais.
Já com as aspas, é possível ler fluentemente (sem nenhuma interrupção desagradável) sem fazer pausa com "dois pontos” e ter que descer um parágrafo só para ler o diálogo.
Resumindo assim, aspas para uma leitura mais dinâmica!!!!

domingo, 14 de junho de 2009

Se os corações falassem...

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"O coração, se pudesse pensar, pararia".

.................................................Fernando Pessoa

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Se os corações falassem não haveria ouvidos para ouvi-los. Não por falta de vontade ou indiferença, mas porque se os corações falassem, soltariam gritos ensurdecedores, ao passo que os tímpanos estourariam-se por completo. Pensou muito bem aquele que um dia resolveu criar em nós, o coração. A “maquinidade” da coisa foi tão poderosa que se encaixou perfeitamente no lugar aonde ele deveria ficar. O coração só serve se for dentro de nós, pois apenas nós poderíamos aguentar o barulho das nossas dores. O espaço de memória é tamanha que nem mesmo o nosso cérebro poderia registrar tão rapidamente e por tanto tempo a quantidade de sofrimento. O coração também recebe alegrias de vez em quando, para suprir as necessidades humanas do “existir” interior, pois nem só de dor vive o ser humano.
Um dia, é claro, a dor explode, e com ela, o desespero. Simplesmente não sabemos aonde colocar tudo o que sentimos. A dor como bem pensaria o ser racional, deveria sair mesmo, mas ao contrário do que muitos pensam, ela não pode fazer isso. Deve coexistir com as outras frações de sentimentos possíveis. A dor gritante não se esconde no silêncio, nem em um turbilhão de outros barulhos. Não se esconde porque está sempre lá. Uma hora ela some, mas sempre acaba aparecendo.É como respirar, comer ou dormir. Simplesmente sentimos uma necessidade eterna no sofrer.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

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Vivemos nossas vidas numa realidade inventada, atrás das palavras de um longo romance. Cada palavra desta história é datilografada pelo major numa máquina de escrever barata. Nada do que é escrito, portanto, escapa à sua atenção.
O mundo de Sofia - Jostein Gaarder

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Mudando de cor

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[...]"Desde então a tive na memória com tamanha nitidez que fazia dela o que queria. Mudava de cor seus olhos conforme o meu estado de ânimo: cor de água ao despertar, cor de açucar queimado quando ria, cor de lume quando a contrariava."
Memória de minhas putas tristes - Gabriel Garcia Márquez
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Sabe, é assim que eu me sinto quando ele me olha, mudando de cor, sempre.