quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Nostalgia?

Dizem, para cada momento sempre há uma música que nos acompanha. Um dia me deparei com uma música que não escutava há pelo menos seis meses. Eis que quando ela começou a mostrar seus primeiros acordes, bateu uma sensação estranha, um vazio, uma estranheza, um reconhecimento, ou apenas nostalgia. Nostalgia, nostalgia, mesmo, não poderia ser; não era exatamente um bom sentimento de recordação, mas algo que eu reconhecia, que realmente havia sentido há seis meses. O momento que vive acendeu na minha mente e o que eu pensava antes estava lá, entregue a mim; o que eu sentia, com o que me preocupava e, logo, o que eu escutava para sarar esses sentimentos ruins.
Entre a música e a minha mente, o que restou mesmo foi aquela sensação, que estará sempre presa na memória quando eu voltar a escutar. Posso esquecer, posso fugir, mas um dia, quando a música começar a tocar eu vou lembrar de tudo que senti. Essas músicas que revelam segredos esquecidos, entregam o jogo logo de cara e me fazem perder o chão porque rememoram momentos e sentimentos que eu me recuso a lembrar. Se isso é bom, bem, não sei. Só percebo a estranheza que é reconhecer uma sensação com canções que ouvi um dia, na inocência, achando que iria me curar do mal que me atingia em determinada época. Mas o que eu não sabia era do fardo de guardar o sentimento em uma música. O mal de fazer isso é tê-la sempre presente, pronta para acordar no primeiro soar da melodia...

segunda-feira, 26 de abril de 2010

[...] A moça foi um sucesso compreensível...

Ela era um triunfo sobre a feiúra, o que muitas vezes é mais feiticeiro que a beleza real, ao menos por conter algum paradoxo. No caso, em contraste com o método escrupuloso à base de bom gosto e treinamento científico, o truque consistira em exagerar os defeitos: ela os tornara ornamentais, assumindo-os com ousadia. Saltos que realçavam sua altura, tão íngremes que os tornozelos tremiam; um corpete reto e apertado, indicando que ela poderia ir à praia usando sunga; cabelos repuxados para trás, acentuando a magreza, a inanição do rosto de modelo. Até mesmo o gaguejar, certamente genuíno e ao mesmo tempo fingido, fora convertido em vantagem. Era o golpe de mestre, aquela gagueira; pois fazia suas banalidades soarem como originais; além disso, apesar da altura, apesar da autoconfiança, inspirava nos ouvintes do sexo masculino o instinto protetor.

Breakfast at Tiffany's, Capote

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Uma nota no espelho

"Os corações frouxos têm destas energias súbitas, e é próprio da pusilanimidade iludir-se a si mesma". M. de Assis.

Quando meu avô morreu não pensei que sentiria tanta falta. Foi rápido.
O que é distante pode ser mais próximo que o próximo. Eu me achava distante, digamos, extremamente longe do meu querido avô. Exceto para pedir brinquedos e coisas para as minhas pinturas abstratas de criança. Ele, por outro lado, pensava de forma diferente, aproveitava tais pedidos para se ver mais perto de mim.
Quando ele morreu eu percebi que éramos mais unidos do que jamais imaginaria se ele estivesse vivo.
A distância aproxima?
Às vezes a gente não percebe. Não percebemos que aquele ao lado está em outro plano, e nós estamos aqui, pensando firme. Isso pode ser ruim, deixar que as relações se afrouxem. Pode ser bom, deixar que sentimentos parecidos não se confrontem e não abalem corações já afrouxados por si só.

Quem de nós está mais distante agora?
Aconteceu assim comigo, e provavelmente deve acontecer com você também.

Rápido, como a vida e a morte.

A nota: Dedicado a quem a carapuça servir.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A lista velha do ano velho

"Tenho que me ver tristonho, tenho que me achar medonho. E apesar de um mal tamanho...Alegrar meu coração"

Conheci esse ano uma pessoa que mudou um pouco as minhas perspectivas de vida, tais como odiar a passagem para o ano novo. Não estou dizendo que isso é ruim e que foi ruim conhecê-la, pelo contrário, agradeço eternamente.

Descobri, enfim, que também odeio o ano novo. Todo "31 de dezembro" antes da meia noite sempre foi tão comum, que nem sequer percebia que enfim era aquilo que estava acontecendo. O ano estava passando. Não que eu precisasse refletir sobre a vida, obrigatoriamente, mas acho que eu precisava um pouco disso.
Aquela velha lista, as de sempre, quase nunca realizadas, mas que sempre fazemos, não porque esperamos fielmente cumprir, mas porque já virou tradição de final de ano, só servem enfim para nos animar, dizer que o próximo ano pode ser melhor (já que, afinal, sempre temos que dizer que precisa melhorar).

Para não perder o clima pensei em algumas coisas cuja realização não será (talvez) sequer cogitada a partir do dia 1º de janeiro:

1. Estudar mais.
2. Independência interior (nem queira entender o que considero ser isso);
3. Correr todos os dias;
5. Ler mais;
6. Filmes;
7. Falar melhor em público, sem gaguejar;
8. Ver a solidão como algo bom;
9. Perder menos tempo com futilidades;
10. Fazer menos planos (leia-se listas). Agir mais.

Não custa tentar ser otimista, né?!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A moça sentada a janela sentiu que não conseguiria...

"Muitos anos da sua existência gastou-os à janela, olhando as coisas que passavam e as paradas". C.L
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Ela olhava a rua. Suspiro vai, suspiro vem. A noite vem, e vem calma como sempre. O dia chega, a lua, o sol, a noite, o dia. E a moça sentada a janela sentiu que não conseguiria. O aperto no peito, a angústia do tempo, a vida perdida, e cada vez ela sentia que nunca, nunca conseguiria. Tinha mania de esperar a vida. Sentada, imóvel, intacta, distante, só. A moça pensava e pensava, queria tantas coisas, mas nunca pensou que conseguiria. Queria viajar o mundo, conhecer rapazes, mulheres, queria dançar e se sentir bonita, queria aprender a cozinhar, se aventurar, sentir a grama, a praia, a neve, queria gritar, esquiar, andar, fumar, beber e viver. A moça sempre pensava em tantas coisas que queria fazer, mas nunca, nunca achou que deveria, nunca achou que merecia, nunca achou, enfim, que conseguiria. O rosto mudava, a cada dia que passava soava mais sério, mais velho, mais fora de si mesmo. Seus olhos cerrados sempre lá, no mundo que um dia idealizou. Suas mãos frias e enrugadas diziam pela vida as poucas coisas que ela tocou. Seu cabelo, agora tingido de tempo, crescia sem forma e desejo. A moça sentada a janela já não tinha noção das horas, dos dias. Esperava. Esperava que algo acontecesse subitamente. Uma vez olhado para longe, sentia que nunca conseguiria e passou a olhar sempre. Ilusão, pensou enfim. Nada poderia fazer. Virou o rosto para dentro de casa, viu seus móveis de anos atrás, sentiu pesar, sentiu-se só. Andou até a cama e deitou-se, sabendo que só conseguiria resistir ali, nos eternos anos de espera e agonia.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Mas não acho que sou muito gente...

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Ele: Santa Virgem, Macabéa, vamos mudar de assunto já!
Ela: Falar então de quê?
Ele: Por exemplo, de você.
Ela: Eu?!
Ele: Por que esse espanto? Você não é gente? Gente fala de gente.
Ela: Desculpe. Mas não acho que sou muito gente.
(Lispector, 1995)
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É que, pelos limites da reflexão sobre a existência, às vezes me esqueço de perceber que estou diante da própria percepção de concsiência. O limite do existir, se existo ou não. Espero eu, como uma epifania, o entendimento da minha real existência aqui. Talvez, quem sabe, despertar para o real. Mas não o meu real.
Sentir que posso falar de mim, sabendo que tenho condição humama para isso.

domingo, 22 de novembro de 2009

A torcida das cigarras

Todos os dias passo por um caminho cheio de árvores enormes e esbeltas. É lá que ouço o canto.
Essa época chuvosa, nublada e fria, nos traz muitas reflexões sobre a vida. O fim do ano vai chegando e a tristeza invadindo os pensamentos. Percebemos quantas coisas foram deixadas para trás, quantas coisas deixamos de lado e quantas coisas simplesmente nos deixaram. A semelhança dos sentimentos ao fim de cada ano é certa, mas nunca a esperamos. E mesmo assim, por incrível que pareça, esses sentimentos existenciais sempre nos surpreendem.
Quando me aventuro pelo corredor verde e vivo, as cigarras nos fazem agir, ou melhor, fazem o nosso pensamento agir. É confuso se não prestar atenção. Muita gente passa, reclama do barulho, resmunga e continua seguindo. Muita gente pára, olha, se pergunta por que tanta manifestação, mas vai embora. Muita gente não entende o que elas fazem. Mas nem tudo precisa, necessariamente, ser entendido. Ou entenda à sua maneira e aquilo se tornará uma verdade.
Se as cigarras morrem mesmo após o término do canto, é preciso ter esperança em alguma coisa, algo em que se agarrar até o suspiro final. A vida delas não têm história completa, não têm clímax, apenas um começo e um fim. Quando as pessoas passam, a chama que outrora jazia apagada, renasce e ascende sobre aquele exército de cigarras. A esperança ressurge na história vivida por cada pessoa. E quando elas passam, a torcida começa. Para cara uma que se aproxima, gritam seu canto, torcem por sua vitória. E o som vira um êxtase diante das árvores que servem de cenário para o espetáculo.
Mas os humanos, cheios de preconceito e ignorância, continuam seguindo, acreditando levar a vida indiferentemente, para toda a conformidade do mundo.
Se nós não vermos algo mágico naquilo que somos ou que poderíamos ser, se víssemos, estaremos sempre mais ligados à realidade sem graça das obrigações e deveres de todos os dias.
Quisera as pessoas saberem do real motivo de todo esse canto sufocado de desejo e magia...